Em uma grande instalação, que ocupa o salão central da Anita Schwartz Galeria, com mais de 8 metros de pé direito, Nuno Ramos realizou uma peça teatral-mecânica, com 47′ de duração, em um momento culminante de sua aproximação com a dramaturgia, presente ao longo de sua trajetória. As vozes que dão vida aos elementos cênicos –uma cortina vermelha, com 5 metros de altura, uma corneta militar e três cadeiras, escolhidas como personagens– foram retiradas e mixadas de mais de 7 mil fragmentos de áudios pesquisados em arquivos históricos e na internet. Entre elas, estão falas de grandes atrizes, âncoras do Jornal Nacional da TV Globo, ministros do Supremo Tribunal Federal, além de intelectuais e figuras de ponta da cultura brasileira. Há ainda a voz de um sujeito que pigarreia, engasga e tosse, e ainda do cantor e compositor João Gilberto [1931-2019].
Um sistema mecânico e automático de roldanas e contrapesos fará com que os objetos subam e desçam, em sincronia com as vozes. O título é alusivo a um trabalho do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), e à cadeira ocupada por Fernanda Montenegro, na Academia Brasileira de Letras.
Nuno Ramos conta que o título se refere à peça “Espectros”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen [1828-1906)], “onde o passado, o hereditário, o inevitável, não cessam de retornar”. E “Cadeira 17” é a cadeira ocupada desde março de 2022 por Fernanda Montenegro, na Academia Brasileira de Letras. “Seu discurso na cerimônia de posse é uma das fontes e inspirações deste trabalho”, diz o artista.
Em um trabalho exaustivo e minucioso – “infernal”, observa Nuno Ramos – que está se ocupando da elaboração desta obra há mais de um ano. Para construir as falas dos personagens, o artista mixou mais de 7 mil fragmentos de vozes, selecionadas em arquivos históricos e na internet, em uma extensa pesquisa.
“É uma homenagem ao teatro, uma fantasmagoria. Lidar com vozes pré-existentes me deu uma liberdade maior para criar o texto. Elas falam o que querem, e eu tento fazer com que falem o que quero, e desta luta saiu meu texto.” –Nuno Ramos
O espaço expositivo se transforma em um palco, onde estão, como elementos cênicos, uma cortina vermelha, com cinco metros de altura, três cadeiras e uma corneta militar. A cada um desses itens, ou personagens, é associado um conjunto de vozes. O movimento em cena é dado por um sistema mecânico e automático de roldanas e contrapesos, que fazem com que cortina, cadeiras e a corneta subam e desçam. A cada um dos cinco objetos cênicos corresponde uma caixa de som, que é acionada quando o contrapeso que movimenta os objetos pousar sobre ela. Para ele:
“Trata-se de uma ‘Peça de Teatro Mecânica’, que funciona sozinha, como uma geringonça autônoma que não precisa de atores nem de espectadores.”

VOZES
São cinco os grupos de vozes que dão vida a cada um dos elementos cênicos:
- Cortina: uma voz de comando, feita a partir de fragmentos de discursos de juízes do Supremo Tribunal Federal, e de âncoras e jornalistas do Jornal Nacional;
- Atrizes (Cadeira 3): uma “voz melancólica e fantasmática” – composta a partir de fragmentos de entrevistas e pequenos fragmentos de filmes, telenovelas e peças, encontradas em arquivos de teatro, desde a época da Atlântida e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) – com o protagonismo de grandes atrizes como Henriqueta Brieba (1901-1995), Zezé Macedo (1916-1999), Tônia Carrero (1922-2018), Cleyde Yáconis (1923-2013), Norma Benguell (1935-2013), entre outras. “É uma voz melancólica e fantasmática” diz Nuno. A voz de Fernanda Montenegro (1929) “é mais poderosa, ativa, propositiva”, destaca. As vozes das atrizes vão acionar uma antiga cadeira do Teatro Municipal de São Paulo.
- Profetas (Cadeira 4): uma “voz exaltada, delirante, feita a partir de pensadores e artistas que encarnam o País e o seu destino”, como Darcy Ribeiro (1922-1997), Glauber Rocha (1939-1981), Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023), Stella do Patrocínio (1941-1992), e frases retiradas principalmente de filmes do cinema marginal, como “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), “A mulher de todos” (1969) e “Sem Essa, Aranha” (1970), de Rogério Sganzerla (1946-2004), ou de “Terra em Transe” (1967), de Glauber. Frases de Caetano Veloso, em seu famoso discurso em meio às vaias no Festival Internacional da Canção, em 1968, também estão neste grupo.
- João Gilberto (1931-2019), (Cadeira 2): “voz em fuga, modal, feita a partir das poucas entrevistas que o cantor concedeu e de raros e mínimos fragmentos de canções”.
- Engasgos (Cadeira 6): “voz de suspiros, tosse, fragmentos de palavras, ditos pelas personagens das demais caixas”.
- Corneta: toques e marchas militares, como a “Marcha da Alvorada”; “Descansar”; “Meia volta, volver” etc.

DESENHOS INÉDITOS
No segundo andar da Anita Schwartz Galeria de Arte estarão cinco desenhos inéditos de Nuno Ramos da série “Waiting For My Wings” [2022/2023], em carvão, pigmentos, pastel seco e cera sobre papel. Ao longo de sua trajetória, Nuno Ramos – que também é escritor, compositor, e cineasta – tem incorporado situações de teatro em seus trabalhos. Suas instalações, muitas vezes em tamanho monumental, incluem falas, músicas, áudios com textos, escritos pelo autor e citados das mais diversas fontes, lidos por atores. Exemplos estão destacados abaixo.
Em 2006, no Instituto Tomie Ohtake, a instalação “Vai, Vai” trazia três jumentos carregando caixas de som, entre montes de feno, sal e barris cheios d’água. A cada elemento correspondia um texto, e trechos da canção “Se todos fossem iguais a você”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, formavam uma das vozes.
MAR MORTO – BARCOS DE PESCA E SABÃO DERRETIDO
Em 2009, na Anita Schwartz Galeria de Arte, Nuno Ramos feza obra monumental “Mar Morto” (2009),composta por dois barcos de pesca, remodelados emtoneladas de sabão derretido produzido no próprio local. Na proa de cada barco, uma caixa de som emitia a voz do ator Marat Descartes,ou de um coro,interpretando o texto “Mar Morto”, escrito por Nuno Ramos.
Em 2010, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a exposição “Fruto Estranho”, instalada no Salão Monumental do Museu, abrangia 20 toneladas, com aviões partidos sobre árvores, andaimes, e o lamento “Strange Fruit” (1939) na voz de Billie Holiday (1915-1959) – hino do movimento negro norte-americano – era a trilha sonora de uma cena de Max Von Sidow em “A Fonte da Donzela” (1960), de Ingmar Bergman (1918-2007).
Em 2016, Nuno Ramos convidou artistas, esportistas, intelectuais, médicos, advogados, ativistas e estudantes para lerem os 111 nomes dos detentos no Massacre do Carandiru, em 1992. A obra “111, Vigília – Canto Leitura” foi realizada por 24 horas seguidas dessas leituras, e transmitida ao vivo por canais em mídias digitais. Anteriormente, Nuno Ramos havia feito dois outros trabalhos sobre o assunto: “111” (1992) e“O dia deles – 24 horas 111” (2012).
Em 2020, um cortejo de veículos se deslocou em marcha à ré da Avenida Paulista, em frente ao edifício da FIESP, ao Cemitério da Consolação. A performance incluía uma dramaturgia sonora composta, em parte, de sonoridades emitidas pelos veículos que remetem ao som de respiradores utilizados no tratamento de pacientes com coronavírus, que necessitavam de ventilação mecânica em unidades de terapia intensiva (UTI). No final, sobre o arco do Cemitério da Consolação, um trompetista tocava o hino nacional ao revés.
Em 2021, Nuno Ramos realizou vários trabalhos que se aproximaram do teatro: “Aos Vivos – Dito e Feito”, no Instituto Ling, em Porto Alegre, atores e atrizes reproduziam, exatamente como ouviam, entrevistas feitas por uma equipe nas ruas da cidade. A ação foi um desdobramento da série de performances Aos Vivos, iniciada em 2018.
O projeto A Extinção é Para Sempre, apresentou no Sesc SP, de maio de 2021 a maio de 2022, dentro do contexto da pandemia, obras que envolveram cinema, performance, literatura, teatro, artes visuais, dança e música: “Chama”, “Monumento”, “Chão-Pão”, “Iracema Fala” e “Os Desastres da Guerra”.

SISTEMA MECÂNICO E AUTOMÁTICO
Em fevereiro e março de 2023, Nuno Ramos fez a exposição “Opening”, na galeria Francisco Fino, em Lisboa, em que discutiu a ideia de monumentos e suas inaugurações a partir de um projeto pensado inicialmente para ser realizado em 2022, na Praça Princesa Isabel, em São Paulo, batizada de Cracolândia, e tendo no centro uma estátua em bronze de um general com espada em punho, a cavalo.O espaço da galeria portuguesa reproduziu a ideia de praça, com três instalações, cobertas por panos brancos, que cobriam um suposto monumento: “David”, “Gelo” e “Sopa”. Foi a primeira vez em que Nuno Ramos experimentou um sistema mecânico e automático, que fazia com que os panos subissem para descortinar as obras, e depois as cobrissem novamente, em um movimento continuado. Em “David”, havia uma réplica perfeita em mármore da base da escultura de Michelângelo, e uma caixa de som que transmitia uma entrevista do “David” fugitivo, encontrado boiando no rio Arno. O outro “monumento” descortinado era um prato de sopa de lentilhas. Seu “discurso de inauguração” era uma colagem de diversos “muito obrigado”, “thank you” e expressões semelhantes. Um bloco de gelo é o terceiro monumento, tendo como discurso inaugural uma colagem de sons associados ao ritual do “minuto de silêncio”, com trompas, pigarros, vento etc. Nas paredes, a obra “City Lights”, com uma sequência de 24 fotografias de frames de um segundo de um filme que mostra a inauguração de um monumento, no início do século 20.
Entre 2021 e 2022, Nuno Ramos passou dez meses em Berlim, onde participou de um programa no Wissenschaftskolleg (WiKo), o Instituto de Estudos Avançados da Faculdade de Ciências de Grunewald.

Nuno Ramos nasceu em 1960, em São Paulo, onde vive e trabalha. Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, é pintor, desenhista, escultor, escritor, cineasta, cenógrafo e compositor. Começou a pintar em 1984, quando passou a fazer parte do grupo de artistas do ateliê Casa 7. Desde então tem exposto regularmente no Brasil e no exterior. Participou da Bienal de Veneza de 1995, onde foi o artista representante do pavilhão brasileiro, e das Bienais Internacionais de São Paulo de 1985, 1989, 1994 e 2010. Em 2006, recebeu, pelo conjunto da obra, o Grand Award da Barnettand Annalee Newman Foundation. Desde os anos 1980, participa de diversas exposições no Brasil e no exterior.
Como escritor – Lançou em agosto passado o livro de poemas “Jardim Botânico”, e já publicou “O mau vidraceiro” (2010), “Ó” (2008), “Ensaio geral” (2007), “O pão do corvo” (2001) e “Cujo” (1993). Como cineasta – Roteirizou e codirigiu com Clima, em 2002, os curtas-metragens “Luz negra (Para Nelson 1)” e “Duas horas (Para Nelson 1)” . Em 2004, roteirizou e dirigiu o curta “Alvorada”. Roteirizou e codirigiu com Clima e Gustavo Moura o curta “Casco”, também em 2004, e “Iluminai os terreiros”, em 2006. Como compositor – Nuno Ramos é ainda um ativo compositor, com 87 fonogramas registrados, desde 1982, quando Belchior gravou “Ma”, uma parceria com Arnaldo Antunes. De lá até agora, Nuno Ramos tem tido como parceiros mais constantes Rômulo Fróes e Clima. Músicas suas já foram gravadas por Gal Costa, Nina Becker, Verônica Ferriani, Leila Pinheiro e Ná Ozzetti. Em 2015, Mariana Aydar gravou o CD “Pedaço duma Asa”, com músicas de Nuno Ramos e Clima. Em 2009, ela já havia gravado “Tudo que eu Trago no Bolso” e “Manhã Azul”, em seu CD “Peixes, Pássaros, Pessoas”. Com Rodrigo Campos, é autor de dez sambas, gravadospelo compositor, junto com Juçara Marçal e Gui Amabis nos dois CDs “Sambas do Absurdo”, Vol. 1 e 2 (2017 e 2022). Em 2021, Rômulo Fróes gravou“Baby Infeliz”,composição dele com Jards Macalé, Guilherme Helde Nuno Ramos. No mesmo digital single“Aquele Nenhum”,está “Ó Nóis” (2021), dele com Nuno Ramos, Alice Coutinho, Clima, Jards Macalé, Guilherme Held, Marino Pinto, Zé da Zilda, Marcelo Cabral e Peterpan.Nuno Ramos compôs, com Thiago França, “Pé”, para o CD “Gira – Trilha Sonora Original do Espetáculo do Grupo Corpo”, em 2017, cantada por Elza Soares e Metá Metá.
Recebeu em 2009, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura por “Ó”. Em 2006, ganhou o Grant Award da BernettandAnnalee Newman Foundation; o 2º Prêmio Bravo! Prime de Cultura, Artes Plásticas — Exposição; e o Prêmio Mário Pedrosa — ABCA — Associação Brasileira de Críticos de Arte. Em 2000, venceu o concurso El Olimpo — Parque de La memoria, para a construção, em Buenos Aires, de monumento em memória aos desaparecidos durante a ditadura militar argentina. Em 1987, recebeu a 1ª Bolsa Émile Eddé de Artes Plásticas do MAC/USP. E, em 1986, o PaintingPrize, 6th New Delhi Triennial, Nova Déli, Índia.

Serviço: Exposição “Nuno Ramos – Espectros (Cadeira 17)” na Anita Schwartz Galeria de Arte, no Rio. Em cartaz até 19 de janeiro de 2024, na Rua José Roberto Macedo Soares, 30, na Gávea, Rio de Janeiro. Entrada gratuita. www.anitaschwartz.com.br